A próxima época velocipédica promete. Os jornais, apesar do defeso, continuam a publicar umas linhas, quando não páginas inteiras sobre a modalidade. É algo a que não estamos acostumados em Portugal. O anunciado regresso do Benfica ao ciclismo é a causa principal de tão grande afã noticioso. Mas as movimentações que se têm vindo a revelar são ainda mais profundas, embora possam ter origem no esperado regresso do clube da Luz.
Até ver, faltando ainda um patrocinador que suporte os 5 milhões de euros apontados com orçamento do Benfica, o regresso deste grande ao ciclismo é apenas uma operação mediática. Mas muito bem montada, diga-se. Contratações como as de José Azevedo, Sérgio Ribeiro e Danail Petrov são de molde a abanar as estruturas da modalidade. No entanto, a promessa é bem maior: passa por correr, para ganhar, no estrangeiro e por montar um projecto de médio/longo prazo. Parece tudo tão perfeito que eu continuo como São Tomé: ver para crer. É certo que o João Lagos e o Orlando Rodrigues não são qualquer Madaleno nem qualquer Natalino, mas continuo sem ver o patrocinador. Será que há mesmo? Será que haverá? Será que se não houver será o próprio João Lagos a avançar com o dinheiro? As dúvidas são tantas que desconfio muito do projecto Benfica. Oxalá me engane...
Com a intensidade desta campanha mediática, a modalidade conquistou visibilidade. Isso, por si só, é um ganho. Ainda que pequeno, caso o Benfica não passe de um sonho. E esse crescendo de visibilidade será o responsável pelas movimentações no mercado. Movimentações, aliás, inauditas na última década do ciclismo luso. Dois patrocinadores resolveram abandonar as respectivas equipas para se juntarem a outras. A Riberalves muda-se para o Boavista, ao passo que a LA Alumínios deixa a equipa da qual foi fundadora para se aliar à sua maior rival, a Maia. À nossa escala, é o mesmo que a CSC passar-se para a Discovery Channel, por exemplo.
Outro caso curioso é o da Madeinox, cujo patrão terá descoberto o filão publicitário da imprensa e terá percebido que é tanto mais importante aparecer fora da estrada como nos pódios das corridas. Vai daí, armou barraca antes da última Volta ameaçando não alinhar à partida, como se alguém acreditasse que um patrocinador prescindisse da visibilidade da principal corrida. Durante a Volta, terá feito saber que estaria disposto a juntar-se a um relançamento do FC Porto, que tomaria conta da estrutura da Maia. Afinal, parece que irá fundir duas equias: a Madeinox-Bric com o Loulé.
Um dos mais antigos investidores na modalidade, o construtor civil dono da ASC, parece também estar a sonhar alto. Entre contratações dadas como certas - José Rodrigues, ex-Boavista - e outras possíveis - David Bernabéu, Juan Gomis e Angel Edo - os vimaranenses querem tornar-se num dos mais fortes conjuntos nacionais.
Até ao momento, acho que há muito fogo de vista. Aguardo pelo dia 18 de Fevereiro de 2007, data do arranque da temporada nacional para ver se o ciclismo saiu mesmo reforçado ou se nos andaram a adoçar a boca para depois nos roubarem o rebuçado.